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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

de Manoel a Charles


Por esses dias lendo Estrela da tarde deparei-me com o poema 'O Fauno' que além belo continha uma referência a outro de Bauldelaire. Inicialmente pensei que os versos eram em francês, mas por tentação do que ignorância, buscando o significado dos mesmo descobri à origem dos versos e uma versão cantada pela Juliette que gostaria de compartilhar. Ficarei devendo o restante da tradução, pois acabei perdendo o link.

O Fauno

Na calada
Da alta noite,
Quando a sombra é como a augusta
Antecipação da morte,
Grita o fauno:

- "Bem que velho,
Te reclamo,
Bem que velho,
Te desejo,
Quero e chamo,
O novelletum quod ludis
In soliludine cordis!
Ó desejada que ainda
Não sabes que és desejada!
Deixa os brancos véus do pejo
E no inóspito jardim
Das oliveiras te cobre
De cilício da paixão!
Respira as auras ardentes,
Cospe fogo,
Vira vento e furacão,
Sopra rijo sobre mim,
Me delabra, me ensorcela,
Ninfa bela!
Não jamais
Ninfomaníaca: és triste,
És calada,
És elegíaca.
Por isso mesmo é que te amo,
Te desejo,
Quero e chamo,
"Ninfa! Aonde estás? Aonde?..."

Grita o fauno, mas só o eco
De sua voz lhe responde
Na calada
Da alta noite,
Quando a sombra é como a augusta
Antecipação da morte.

Franciscae meae laudes
Louvores à minha Francisca

Vers Composés Pour Une Modiste Érudite et Dévote

Novis te cantabo chordis,
O novelletum quod ludis
In solitudine cordis.
Catarte-ei nas cordas novas,
O tu que alegre floresceu
no deserto de meu peito.

Esto sertis implicata,
O femina delicata
Per quam solvuntur peccata!

Sicut beneficum Lethe,
Hauriam oscula de te,
Quæ imbuta es magnete.

Quum vitiorum tempestas
Turbabat omnes semitas,
Apparuisti, Deitas,

Velut stella salutaris
In naufragiis amaris…
Suspendam cor tuis aris!

Piscina plena virtutis,
Fons æternæ iuventutis,
Labris vocem redde mutis!

Quod erat spurcum, cremasti;
Quod rudius, exæquasti;
Quod debile, confirmasti.

In fame mea taberna,
In nocte mea lucerna,
Recte me semper guberna.

Adde nunc vires viribus,
Dulce balneum suavibus
Unguentatum odoribus!

Meos circa lumbos mica,
O castitatis lorica,
Aqua tincta seraphica;

Patera gemma corusca,
Panis salsus, mollis esca,
Divinum vinum, Francisca!



domingo, 20 de novembro de 2016

Why Beauty Matters (Por que a beleza importa?) - Roger Scruton (Documentário)

 Até a década de trinta do século passado se perguntássemos às pessoas educadas qual é o objetivo da arte, elas nós responderiam que era de retratar a beleza. E se vocês os perguntasse o por que disto, eles o justificariam dizendo que o a beleza é uma valor tão importante quando a verdade e a bondade...



*Por que a beleza importa é um documentário é produzido pela BBC e apresentado pelo filósofo inglês Roger Scruton. Nele Scruton expôs, a partir da obra de Kant e Platão, trilhou o caminho da fealdade, deixando-nos em um deserto espiritual.

 Até a década de trinta do século passado se perguntássemos às pessoas educadas qual é o objetivo da arte, elas nós responderiam que era de retratar a beleza. E se vocês os perguntasse o por que disto, eles o justificariam dizendo que o a beleza é uma valor tão importante quando a verdade e a bondade.
 Não entanto não é bem isto que nossos artistas modernos buscam mais expressar. A arte moderna parece muito mais preocupada em chocar e desconstruir padrões morais do que com a beleza. Por um estranho processo a feiura ganhou status de arte. Não é mais a beleza o importante e sim a originalidade do artista, não interessando o custo moral que isso traria. Nossa fala, no arquitetura, nossa musica e nosso comportamento estão cada dia mais rudes e bárbaros. Como se a beleza e bom gosto não tivessem mais espaços em nossas vidas.
 A beleza foi essencial para nossa cultura, desda Grécia antigas filósofos refletem sobre a importância da beleza na arquitetura, na música, na poesia e na vida cotidiana. Os filósofos gregos argumentaram que através da beleza é moldamos o mundo como um lar e também atráves dela é que entendemos a sua essência natural e espiritual.
 No entanto o nosso mundo virou as costas para beleza, deixando se  contaminar pela feiura e alienação. Os grandes artistas do passado estavam cientes de que nossas vidas é repleta e caos e de sofrimento, no entanto eles tinham o remédio para isto, o nome desse remédio era beleza. A beleza da arte traz a consolação. E nossos artistas perderam essa formula, eles já não acreditam que a beleza possa redimir o homem.
O artista moderno pensa que está sendo criativo, no entanto não o é. Por que um artista verdadeiramente criativo faria aquilo que as crianças quando desenham fazem - exprimindo o mundo da maneira com que elas o vêem. Este tipo de experiencia encontramos também na arte dos grandes artistas, aonde, de uma maneira muito mais elevado, eles retratam o mundo a partir daquilo que eles tem de ideal. O verdadeiro artista mostra-nos o real através da ótica do ideal e então transfigura-lo. E isto é o que Michelangelo atinge em seu David.
 Quem sabe o homem moderno não acredite mais em ideais e a sociedade de consumo valorize somente aquilo que lhe é útil. E foi com esta valorização unica e exclusiva da utilidade que a arquitetura moderna se perdeu, pois ao construir edifícios unicamente úteis e não belos, ela edificou construções que rapidamente se transforma em obsoletas. As conseguências desastrosas deste tipo de pratica podem ser vista na maioria das cidades hoje. Quando vemos a quantidade enorme edifícios degradados e sem nenhum outra utilidade, excetuando a de serem demolidos para outros por suas vez ocupem o seu lugar.
 Ao supervalorizar a utilidade os arquitetos foram construindo edifícios que com o passar do tempo se transformavam em inúteis. Ao contrário da arquitetura tradicional que faz-nos lembrar que não é só do útil que precisamos, nossas vidas são muita mais que úteis. A lição disso é que priorize a utilidade e logo lhe será útil, priorize a beleza e aqui sempre lhe será útil.
 Para Platão a beleza representa um apelo a uma ordem superior, através da beleza entramos em contato com a divindade. Essa visão gloriosa da arte influenciou por muito todo pensamento ocidental. Nós acostumamos a ver a beleza como a imagem de Deus no mundo.
 É certo que o desenvolvimento da ciência deixou-nos mais céticos, no entanto muito filósofos
tentaram preencher este vazio criado. Para Kant por exemplo a beleza era alcançada no desprendimento de todos os nossos interesses, em um atitude completamente contemplativa. Como quando observamos uma paisagem campestre. Semelhante visão temos do amor e da morte, principalmente desta última. Ao vermos nossos entes queridos compreendemos que a vida transcendes a este mundo, nossa afeição não é ao corpo exposto no caixão, pois ele sendo simples matéria, e sim a aquela pessoa que já não está mais entre nós.
 Ao ridicularizar a visão gloriosa da arte, os artistas modernos expressam apenas um mundo que não vale a pena ser amado - um mundo aonde o amor não existe ,e o caos e a desordem imperam. E aquele que por um outra lado seguem o caminho tradicional da arte são considerados antiguados.
 Ao descrever o "real" o artista moderno não expressa o real e sim o seu desprezo por aqueles valores que a arte antes glorificava. E aquele caminho para divino que antes a arte representava é desconhecido para o artista moderno. 





sábado, 2 de agosto de 2014

Ser Poeta... por três grandes


Ser Poeta por três grandes da língua portuguesa: Florbela Espanca, Fernando Pessoa e Manuel Bocage.

Ser poeta (ouvir)¹
(Florbela Espanca)

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

(Charneca em flor)

Autopsicografia²
(Fernando Pessoa)



                                    
O poeta é um fingidor. 
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor 
A dor que deveras sente. 

E os que lêem o que escreve, 
Na dor lida sentem bem, 
Não as duas que ele teve, 
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda 
Gira, a entreter a razão
Esse comboio de corda 
Que se chama coração.

(Cancioneiro)

Estando enfermo um poeta
(Manuel Bocage)

Estando enfermo um poeta
Foi visitá-lo um doutor,
E em rigorosa dieta
Logo, logo o mandou pôr.
"Regule-se, coma pouco"
Diz-lhe o médico eminente.
"Ai senhor! (acode o louco)
Por isso é que estou doente."

Livro: (?)

¹ Musicada pelo grupo português Trovante com o nome de perdidamente
² Curta do site Curta Pessoa, esse é o dos poemas mais conhecido de Pessoa, com declamações gravadas por João Villaret (ouvir) e Paulo Autran (ouvir) e além de ter sido musicado por Tom Jobim (ouvir)

domingo, 20 de julho de 2014

A "Canção"

(Fernando Pessoa)¹


Silfos ou gnomos tocam?... 
Roçam nos pinheirais 
Sombras e bafos leves 
De ritmos musicais. 
Ondulam como em voltas 
De estradas não sei onde 
Ou como alguém que entre árvores 
Ora se mostra ou esconde.

Forma longínqua e incerta 
Do que eu nunca terei... 
Mal oiço e quase choro. 
Por que choro não sei.

Tão tênue melodia 
Que mal sei se ela existe 
Ou se é só o crepúsculo, 
Os pinhais e eu estar triste.

Mas cessa, como uma brisa 
Esquece a forma aos seus ais; 
E agora não há mais música 
Do que a dos pinheirais. 

¹ Versão da Madredeus para poema de Pessoa que foi musicada pela primeira vez por António Variações (Ouvir)

(Cancioneiro)

sábado, 7 de junho de 2014

O amor em dois Poemas de Fernando Pessoa, n'outro de Camões e na Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios


Mas como causar pode seu favor,
 nos corações humanos amizade, 
se tão contrário a si é o mesmo Amor? 
- Luís Vaz de Camões


Ao Longe, ao Luar
(Fernando Pessoa)

Ao longe, ao luar, 
No rio uma vela, 
Serena a passar, 
Que é que me revela? 

Não sei, mas meu ser 
Tornou-se-me estranho, 
E eu sonho sem ver 
Os sonhos que tenho. 

Que angústia me enlaça? 
Que amor não se explica? 
É a vela que passa 
Na noite que fica. 

(Cancioneiro)

O Amor quando se revela
(Fernando Pessoa)

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar, 
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe 
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar... 

(1918-1930)

Amor é fogo que arde sem se ver (ouvir)¹
(Luís Vaz de Camões)

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

(Poemas para amar o amor)

Hino à Caridade (ouvir em Italiano)²
(São Paulo,1Cor 13)

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.
Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada.
Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria!
A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante.
Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor.
Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
A caridade jamais acabará. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará.
A nossa ciência é parcial, a nossa profecia é imperfeita.
Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá.
Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança.
Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido.
Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade - as três. Porém, a maior delas é a caridade.

¹ Versão do poema feita pela banda de rock brasileira Legião Urbana, nessa mesma canção é mesclada algumas frases do hino à Caridade de São Paulo.
² Trecho do filme São Paulo, produzido pela Rai

Cartãs Paulinas: (Faltante)

domingo, 27 de abril de 2014

A criança que fui chora na estrada


(Fernando Pessoa)

I
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

II
Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.

E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me, 
Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

III
Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço
O que sinto que sou? Quem quero ser
Mora, distante, onde meu ser esqueço,
Parte, remoto, para me não ter.

Prolixo: Que se expressa através do uso excessivo de palavras; que não consegue resumir uma ideia, encurtar um pensamento

segunda-feira, 3 de março de 2014

Requiem a um sentimento

(Gigi Manzarra)

Jogo através do vento, as dúvidas secretas do meu destino e como sombra sorrateira, procuro nelas a sina escrita do meu amor. Atravesso a ilusão da eternidade e descubro que a labareda ardente que nos consumia, não me queima mais.
 Metamorfose lenta e imperceptível de um sentimento quente embalado nos braços de uma amizade morna, que o reduziu a uma pequena brasa que agora agoniza chorando dentro do meu peito.
 Sopro com força a brasa incolor que ruboriza tímida, sem ter a certeza se quer acender.
 No espelho da alma, a saudade me culpa o coração inconstante de vontade rebelde que não sabe amar. 
Olhando o teu rosto, mergulho neste sentimento tépido e questiono o porquê da minha quente paixão ter-se esvaecido no balanço monótono do tempo.
 Sobressalto o meu coração para acordá-lo, mas é tarde demais e me rendo sem luta a esse sono profundo de um sentimento morno a que o condenei!

Requiem: palavra do latim que significa repouso ou descanso; espécie de oração ou missa especialmente composta para um funeral, ou em favor das almas do Purgatório

No site Estúdio Raposa gravação do poema que pode ser baixada [link direto]

Livro: (?)